Louise Fernandes Caze
Louise era dessas pessoas que irritam de tão inteligentes. Sabe quando alguém parece saber de tudo, como se o mundo fosse um livro aberto que só ela conseguia ler? Era assim. Uma mente afiada, quase cortante, que às vezes me fazia rir de nervoso, porque como alguém podia ser tão absurdamente brilhante e ao mesmo tempo tão humana, tão quebrada quanto eu? Ela carregava um passado pesado, cheio de traumas, abusos e negligências — cicatrizes que eu reconhecia, porque também as tenho. Talvez por isso a gente se entendesse, mesmo sem precisar dizer muito.
Ela tinha um jeito único de viver. Aproveitava o momento como se cada segundo fosse um presente que ela desembrulhava com calma, curtindo a própria companhia. Era elegante, não só no jeito de se portar ou de falar — e como ela falava bem! —, mas na forma como existia. A Louise se deixava inventar por quem cruzava o caminho dela. Eu fui uma dessas pessoas. Peguei pedacinhos dela, criei uma versão dela na minha cabeça, mas nunca cheguei perto de entendê-la de verdade. E, no fundo, acho que ninguém chegou.
Isso me dói. Dói porque a Louise passou boa parte da vida sozinha. Não que ela quisesse, mas as pessoas — eu inclusa — não souberam estar lá por ela. Negligenciaram ela em vida, e até na morte esse abandono a seguiu. No velório, trocaram o corpo dela pelo de um homem. Três dias depois, a mãe dela recebeu uma ligação, como se fosse só mais um problema a resolver. É quase poético, de um jeito trágico: até no último adeus, ela ficou sozinha, perdida num erro que não era dela.
Hoje, sinto saudade. Saudade da irritação que ela me causava com aquela inteligência que parecia desafiar o mundo. Saudade do jeito que ela me fazia sentir menos sozinha nas minhas próprias rachaduras. Ela se foi, mas a vida dela — essa mistura de força, elegância e solidão — merece ser celebrada. A Louise não era perfeita, mas era real. E, de alguma forma, ainda está aqui, nos pedaços que ela deixou em mim e em quem teve a sorte de conhecê-la.
Eu não a salvei. Ninguém salvou. Mas posso fazer isso agora: lembrar dela, escrever dela, eternizar o que ela foi. Porque a Louise merece ser mais que um erro corrigido três dias depois. Ela merece ser vista, sentida, celebrada. E, enquanto eu respirar, ela vai estar viva aqui.
Eu sei que a Louise não vai ler essas palavras. Ela se foi, e esse vazio é uma certeza que pesa no peito. Mas, ainda assim, eu precisava escrever. Não é para ela, não exatamente — é para mim, para quem ainda está aqui, para o mundo que não deu a ela o espaço que ela merecia. Escrever sobre a Louise é a minha forma de gritar que ela existiu, que ela foi mais do que os silêncios que a cercaram, mais do que a negligência que a acompanhou até o fim. É a minha maneira de dizer que ela importava, mesmo que eu não tenha sabido mostrar isso enquanto ela estava aqui.
Sinto que é uma forma justa de validar a existência dela. A Louise viveu sozinha em tantos sentidos, mas não posso deixar que ela seja esquecida sozinha também. Cada letra aqui é um pedaço de reconhecimento, uma tentativa tardia de dar a ela o que eu não dei antes: atenção, presença, um lugar. Não muda o passado, não apaga a culpa que carrego por não ter sido mais para ela. Mas, talvez, eternizando ela nessas linhas, eu consiga fazer com que alguém veja o que eu vi — a inteligência irritante, a elegância natural, a força que ela tinha mesmo estando tão quebrada.
Ela não vai ver isso, eu sei. Mas eu sinto ela aqui, de algum jeito, enquanto as palavras saem. E se eu puder fazer com que uma pessoa sequer pare por um segundo e pense nela, já vai ser algo.
Porque a Louise merece ser lembrada. Não como um erro no velório, não como uma ausência que passou despercebida, mas como a pessoa incrível que ela foi. Escrever isso é o meu jeito de segurar ela comigo, de não deixar ela desaparecer de novo. Garantir de que, dessa vez, mesmo que tardio, eu não vou fechar a porta.

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