Palavras no Arame
Na escola Nelson Machado, em Cururupu, Maranhão, o lápis era meu rei. Eu escrevia poemas de quatro versos, rimas tortas que saíam da cabeça enquanto o ventilador da sala rangia — tipo “o rio corre sem parar / o sol queima o meu olhar / a vida passa devagar / e eu só quero imaginar”. Achava que era poesia de verdade, algo que o mundo ia ler um dia, mas os professores passavam batido, “cadê a lição de casa?”, e meus avós nem olhavam, ocupados com o fogão e o silêncio. Eu via Cavalo de Fogo na Sessão da Tarde, deitado no chão quente da sala, e depois corria pro caderno pra fazer “resumos”. Escrevia que a Sara era corajosa mas o cavalo era o herói de verdade, ou que o Gato Guerreiro do He-Man tinha mais alma que o castelo. Chamava de resumo, mas era como se eu quisesse explicar pras palavras por que aquelas histórias me salvavam da tarde vazia. Ninguém lia, o caderno ficava na gaveta, mas eu me sentia um crítico, um gênio que ninguém via. Tinha o diário, um caderno de arame meio amassado...