Palavras no Arame

Na escola Nelson Machado, em Cururupu, Maranhão, o lápis era meu rei. Eu escrevia poemas de quatro versos, rimas tortas que saíam da cabeça enquanto o ventilador da sala rangia — tipo “o rio corre sem parar / o sol queima o meu olhar / a vida passa devagar / e eu só quero imaginar”. Achava que era poesia de verdade, algo que o mundo ia ler um dia, mas os professores passavam batido, “cadê a lição de casa?”, e meus avós nem olhavam, ocupados com o fogão e o silêncio.


Eu via Cavalo de Fogo na Sessão da Tarde, deitado no chão quente da sala, e depois corria pro caderno pra fazer “resumos”. Escrevia que a Sara era corajosa mas o cavalo era o herói de verdade, ou que o Gato Guerreiro do He-Man tinha mais alma que o castelo. Chamava de resumo, mas era como se eu quisesse explicar pras palavras por que aquelas histórias me salvavam da tarde vazia. Ninguém lia, o caderno ficava na gaveta, mas eu me sentia um crítico, um gênio que ninguém via.

Tinha o diário, um caderno de arame meio amassado, onde eu inventava uma vida que não era minha. Lá eu tinha amigos, uma turma que me chamava pra correr no mato, que ria comigo e me puxava pra ver o pôr do sol no rio. Era emocionante, barulhento, cheio de gente que se importava — tudo que Cururupu não me dava. Eu narrava como se fosse real, como se pudesse pular pra dentro daquelas páginas e deixar o mundo quieto pra trás.

A biblioteca da escola era simples, paredes descascadas, pilhas de livros didáticos que ninguém tocava. Mas eu achava uns tesouros — histórias de piratas, ficção que me levava pra longe do calor e do tédio. Li meu primeiro livro de verdade ali, não lembro o nome, mas lembro do fogo que acendeu: “Eu vou escrever um livro um dia”. Sonhava com isso enquanto o rio corria lá fora, enquanto meus avós cozinhavam e os professores corrigiam provas sem me ver.

Ninguém ligava. Os poemas, os resumos, o diário — eram só rabiscos pra eles. Mas pra mim eram tudo, um mapa pra escapar, um jeito de ser alguém. Ainda escrevo, jogo palavras num blog como quem joga sementes no vento. Talvez ninguém leia, como antes, mas eu continuo. Um dia, alguém vai pegar um livro meu numa biblioteca como aquela e sentir o que eu senti. Até lá, eu escrevo pro garoto que rabiscava no caderno de arame, o que acreditava que as palavras podiam ser maiores que o silêncio.

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