"O Som que o Sapo Faz"

Uma história sobre Cururupu, contada por quem respira seus mangues

Meu nome é Davi, tenho 12 anos, e eu sou de Cururupu, Maranhão, que, segundo minha vó, é o lugar onde o mundo começou a cantar — ou pelo menos onde os sapos aprenderam a fazer barulho. Não sei se acredito nisso, mas às vezes, quando deito na rede no quintal da nossa casa de barro e ouço o kururu-pu vindo dos manguezais, penso que ela pode estar certa. Aqui não tem shopping, cinema ou Wi-Fi decente, mas tem um tipo de magia que não explica em livro de escola. É o tipo de lugar que te abraça com cheiro de peixe frito e te pisa com lama até os joelhos, tudo ao mesmo tempo. E eu amo isso, mesmo quando odeio.
 
Capítulo 1: A Cidade que Coaxa

Eu não sei quem inventou Cururupu, mas aposto que foi alguém que gostava de água e barulho. A gente fica no litoral ocidental do Maranhão, onde o mar briga com os rios e os mangues pra decidir quem manda mais. Minha professora, dona Socorro, diz que o nome vem do tupi, algo sobre o som dos sapos, e eu acredito, porque à noite é como se a cidade inteira virasse um coral anfíbio. Tem umas 30 mil pessoas aqui, mais ou menos, e todo mundo conhece todo mundo — tipo, se eu espirro na rua do mercado, minha tia Zilda já tá me mandando chá de guaco antes de eu chegar em casa.

A cidade é um monte de ruas de terra e paralelepípedo, casinhas baixas de taipa ou tijolo, e a Igreja de São Benedito olhando tudo de cima como um avô orgulhoso. Tem o porto, onde os barcos balançam trazendo peixe pro almoço, e a Praça Dô Carvalho, que fica cheia de barraquinha na festa junina. Mas o que eu gosto mesmo é o quintal da minha casa. É de tamanho normal, com um pé de pequi que fede quando tá maduro, uma jaqueira que derruba fruta no chão pra minha prima Juju pisar sem querer, e uma mangueira rosa que me dá sombra pra ler gibi. Às vezes, eu subo na mangueira e fico olhando os manguezais, que são tipo um mar de mato verde e preto, cheios de garças e segredos.
 
Aqui, a cultura é tudo. Não é só o que a gente faz, é o que a gente é. Minha vó, que já tá com 67 anos e ainda reza pra tirar quebranto, diz que Cururupu vive nas histórias que os velhos contam e nas músicas que os tambores tocam. Eu não sei se acredito em tudo — tipo, o Curupira com pés tortos e cabelo de fogo? Parece invenção de quem tomou cachaça demais —, mas quando a noite cai e o vento assobia no mato, dá um arrepio que eu não explico.

O São João é o coração disso tudo. Não é só uma festa, é tipo o Natal, o Ano Novo e o aniversário da cidade num pacote só. Em junho, Cururupu explode em cores e barulho. As fogueiras acendem nas ruas, o cheiro de milho assado e pamonha sobe no ar, e o Bumba-meu-boi toma conta de tudo. Aqui, o boi é do sotaque costa de mão, que é o nosso jeito maranhense de fazer as coisas. Os pandeiros tocam com as costas das mãos, os tambores-onça roncam fundo, e as matracas batem tão rápido que parece que o chão vai rachar. Eu já vi o Boi Brilho da Sociedade umas mil vezes, com aquele couro cheio de fitas e os brincantes dançando como se o mundo fosse acabar amanhã. Tem o Cacuriá também, que é minha parte favorita — as mulheres com saias rodadas girando, os pés descalços batendo na terra, e todo mundo cantando até ficar rouco. Ano passado, a prefeitura fez um São João de dez dias, com o tema "São João de Sotaques", e eu juro que ouvi o boi mugir mesmo sendo de pano.

A comida é outra coisa que não dá pra ignorar. Minha tia Zilda faz um arroz de cuxá que é tipo um abraço quente — arroz soltinho com aquela erva azeda, vinagreira, misturada com camarão seco ou peixe frito. Tem o peixe pedra na brasa, que meu tio Chico pesca no rio Guajeruti e tempera com sal grosso e limão, e a tapioca com coco ralado que minha mãe faz de manhã, quando o sol mal nasceu e o quintal ainda tá molhado de orvalho. Às vezes, a gente come pequi com farinha, e o cheiro fica na mão o dia inteiro, mas eu não ligo. É Cururupu na palma da mão, como diz meu avô.

A música aqui não é só festa, é vida. Além do Bumba-meu-boi, tem o tambor de crioula, que eu vejo os mais velhos dançando na rua, os pés batendo no chão e as saias rodando como se fossem voar. Minha prima Juju, que tem 15 anos e acha que sabe tudo, diz que é coisa de velho, mas eu gosto do jeito que o tambor fala comigo, mesmo sem palavras. Tem as ladainhas também, que minha vó canta quando reza pras almas, com uma voz tão fina que parece que vai quebrar. Ela diz que é pra ajudar os mortos a descansarem, mas eu acho que os mortos daqui não descansam nunca — eles tão muito ocupados assistindo a gente.

Eu não sei o que é crescer em outro lugar, mas aqui é assim: barulhento, bagunçado, quente pra caramba, e lindo de um jeito que não explica. Tipo, ontem eu tava na beira do rio com meu amigo Tico, jogando pedra pra ver quem fazia mais onda, e ele perguntou se eu já quis morar em São Luís ou São Paulo, algum lugar grande. Eu disse que não. Porque Cururupu não é só onde eu moro — é quem eu sou. O coaxar dos sapos, o cheiro do pequi, o som das matracas, tudo isso tá no meu sangue. E se um dia eu for embora, acho que vou ouvir o kururu-pu me chamando pra voltar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conflitos Internos (e a tentativa do EXTERNO em entender o que vem de dentro de uma singularidade em formação)

Louise Fernandes Caze

IMPORTÂNCIA